sexta-feira, 24 de julho de 2015

A Mente é um Jardim

"...o homem, mais cedo ou mais tarde, descobre que é o mestre jardineiro da sua alma, o director da sua vida. Também revela perante ele, as leis do pensamento e, com uma crescente precisão, como as forças do pensamento e os elementos mentais operam na definição do seu carácter...” James Allen.
Passaram quase quinze dias e ainda tenho na cabeça o rufar dos tambores. Ainda sou assolado pelo som das cordas de piano a serem estimuladas por processos não convencionais. Refiro-me a um dos concertos integrado no programa dos Jardins Efémeros. Ah, os Jardins... Confesso que não concordo com a expressão gostos não se discutem. Acredito que sim, que se discutem e é precisamente dessa discussão - salutar e civilizada, claro - que se evolui enquanto criatura “crescente”. Tão fácil que seria agradar a todos, tão fácil que seria massificar e presentear-nos com algo espectável e seguro. Tão fácil que seria cair no lugar comum, no relvado seguro e uniformemente aparado. Sandra Oliveira, desta feita, cravou a enxada mais fundo na terra das nossas mentes. Não repetiu a plantação e arriscou no ecossistema que apresentou. Foi fácil? Não. Foi efémero? Também não. Sinto a semente destes Jardins de uma forma mais profunda, mais cravada, mais inquietante e, principalmente, mais questionante. Fez pensar, e isso é bom. É uma semente que germina. É uma semente que abre horizontes, que nos coloca fora da zona de conforto e é aí, fora do conforto, que a magia acontecesse. Este ano, os Jardins estava mais secos, mais austeros e mais rígidos. Abriam com a tal luz da cidade, transfigurando-se pela noite. Estes Jardins tinham vida e identidade própria. Obrigado Sandra, obrigado por tirares conforto e proporcionares confronto. Por favor continua a regar, já é mais que utopia.


sexta-feira, 6 de março de 2015

Bad Red

Ah, uma família feliz! O anúncio televisivo de uma operadora telefónica retrata uma família feliz! É vê-los a praticar desporto, a ir a festas e a divertirem-se nas atracções de uma feira franca. Francamente, mais parece uma feira de horrores... Não pelas atracções mas sim pela atroz imagem de uma família junta, mas ao mesmo tempo separada. A família faz tudo junto, mas sempre sem largar o telefone. Que giro!!! Que triste... Que família triste e que mensagem ainda mais triste. Recordo-me da alegada citação de Einstein “Temo o dia em que a tecnologia se sobreponha à nossa humanidade: o mundo terá apenas uma geração de idiotas”. Sim, alegada, pois a tecnologia tem destas coisas, propaga-se uma suposta falsa citação como se de uma verdade absoluta se tratasse. A culpa não é da tecnologia, mas sim do discernimento que colocamos, ou não, ao seu uso e consumo.
Sendo entusiasta das novidades tecnológicas, faço regularmente um esforço para encontrar soluções que me facilitem a vida e/ou o acesso à informação e sua manipulação que cumpra esse objectivo, facilitar. Se permitem cruzar o mundo virtual com o real, melhor ainda; se permitem aproximar quem está longe mas sem afastar os próximos, então, aí sim, é o ideal. Quantas vezes o simples facto de se querer registar à viva força um momento, acabou por o “transvestir” de uma realidade encenada apenas para que a sua luz fosse registada num chip de imagem? De repente lembro-me de algumas velas que tiveram de ser reacendidas por causa de um flash que não disparou!?
Ficou o registo da acção, é certo. Mas a memória? Para onde relegamos a memória que o tempo se encarrega de desvanecer ou enaltecer?
Este mês é dia do pai, já escolhi a minha prenda. Quero uma caixa. Uma caixa para, durante um dia, guardar o meu telefone e o da minha filha. Não quero selfies, quero um momento de família feliz.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Rompe e rasga


“Olá, desde o ano passado!” Ah... os inevitáveis clichés dos primeiro dias de Janeiro. Com eles surgem também os primeiros entraves às resoluções de Ano Novo. Recordam-se da coluna do ano passado? Perdão, do mês passado! Falou-se disso.
Do dia 31 de Dezembro para 1 de Janeiro vai um salto enorme. Foguetes são lançados, decisões são tomadas com reforçado fulgor, agendas são colocadas na prateleira e outras são estreadas. De facto, olhando para uma agenda, uma página inteira separa um ano de outro, passamos do fundo de um calendário com os meses, para o início de um novo. Mas... e no real? Sim, pois o calendário é tão somente uma representação da realidade, dos dias, das semanas. Não é a realidade em si. Bom, na realidade passamos de uma quarta-feira para uma quinta-feira...
O que de tão refrescante (para além do frio) separa estas datas? Talvez o significado que lhe queiramos dar, talvez a nossa necessidade intrínseca de nos reinventarmos, de inovarmos na nossa efémera existência. 
Criando marcos e âncoras, sejam elas festividades, passas, saltos com o pé direito, o que importa é que acabamos por assumir uma necessidade de inovação, não uma inovação de continuidade, mas sim uma inovação disruptiva, de rompimento com práticas enraizadas.
Se conseguimos romper e desconectarmos do que queríamos deixar no passado, isso já é outra conversa. Afinal, esse passado pode ainda vir agarrado à mesma semana! Que aborrecimento! Mudou o mês, mudou o ano... mas a semana é a mesma! A percepção é tramada.
Quão confortáveis estaremos nós nessa tal de inovação disruptiva? Pouco, talvez. E ainda bem! Caso contrário estaríamos numa evolução continuada mas escamoteada.
Caso as suas escolhas para 2015 tenham sido evolução ou revolução, uma coisa peço, reinvente-se. Como no anúncio, você merece!