sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O Natal dos Guardiões

Hoje tive uma forte fonte de inspiração. Contrariamente ao habitual (vir de bicla), desloquei-me de carro para a zona histórica e, caso raro, vislumbrei um lugar perto do Museu Nacional Grão Vasco. Mas esse lugar afinal estava destinado! Esse lugar tinha uma guardiã! Guardiã essa que, com voz esganiçada, me avisou que o lugar estava guardado para uma amiga que estava mal estacionada e que tinha ido buscar o carro para irem ver o museu. Ora, talvez embebido de espírito de bom anfitrião (o sotaque era do sul, era mais “à séria, tá a ver?”) abdiquei do lugar não sem antes referir a falta de civismo que tal acção representava. Mas aí fez-se luz! Mas que falta de civismo?! Estamos na tal quadra!!! A quadra do vale-tudo! Assim sendo tomo a liberdade de compilar algumas práticas para aprimorar o moderno espírito natalício, dando aos leitores a possibilidade de inovarem e acompanharem as mais recentes tendências sociais. 

Comecemos então: Guarde lugares, guarde lugares de tudo, de estacionamento com o corpo de alguém, das mesas com os casacos e já agora, da fila do WC com os chinelos de quarto; quando descer escadas rolantes pare logo à frente a decidir para onde vai, demore a decidir e engane os restantes simulando que volta para trás; se for de elevador não deixe sair ninguém antes, entre primeiro e, se possível, com sacos em ambos as mãos; a zonas de entrada nas superfícies comerciais são as melhores para estacionar, só os broncos é que não notam; nos cruzamentos bloqueie quem vem de outros lados e, se tiverem aquela trama de riscas amarelas, aproveite para se entreter tentando parar cada roda sem tocar nas riscas - é bestial - no verdadeiro sentido da palavra! Ah, e nas mesas das praças de restauração, ocupe sempre em número superior ao que necessita, guarde lugares para a família de um amigo, afinal, é a quadra do Natal!

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Pilhas

Portugal está ao rubro, está incandescente. Só não está mais quente por o verão de S. Martinho veio mais cedo (e também já foi) e agora a iluminação é de LED´s e mais fria, senão vejamos: 

O Primeiro-ministro inaugura uma escultura da super-contratada Joana Vasconcelos, um clique, dois cliques no comando e a coisa não funciona… é da pilha. O polémico galo, detestados por uns, aclamado por outros, acende algumas discussões e relembra de algo importante em sociedade, que é possível, e até saudável, ter opiniões diferentes e as debater. É assim que se formam as ideias, não num básico e simplório “quem não é por mim é contra mim” do tipo “fica lá com a bicicleta”. Já agora, por falar em bicicleta e transportes:

A Web Summit decorre em Lisboa. Um evento com uma projecção mediática impressionante e um elevado retorno em potencial, Um manancial de mentes brilhantes, misturadas com comuns mortais e os (menos) comuns investidores.
No arranque do evento, Paddy Cosgrave, o fundador da Web Summit, tentou mostrar 'live streaming' do evento, mas pelos vistos o wifi não tinha, digamos, “pilha”.
Milhares de ideias a fervilhar e não só. Algumas coisas também fervilham pelas redes sociais, pilhas de partilhas de fotografias - quiçá narcisistas - de crachá de atendee ao peito. Agora partilhar conteúdos, ideias e assunto que fossem de lá surgindo? Humm, isso dá muito trabalho e poucos likes. Brotam também partilhas de cenários assustadores para quem se tem de deslocar na cidade. Metro entupido. Pobres Lisboetas, já não lhes chegava as obras e os tuk-tuk… Agora os despenteados passeiam pelas nossas ruas, bebem da nossa cerveja, podem (pelo que foi noticiado) ficar até mais tarde , beneficiam da benevolência das autoridades e ainda têm a distinta lata de entopir o metro? Só faltava levaram as ideias para outros países! Aí sim, ficávamos com nervos, com uma pilha deles!

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

“Nota-se que adora o que faz”. Foi com esta curta e poderosa frase que concluíram a minha apresentação à plateia. Dei dois passos e encarei-a. Que plateia! Todos, ou quase todos, antigos professores. A tarefa, quase vestida de desafio, foi-me proposta pela minha irmã: ir falar, durante cerca de uma hora, sobre Coaching na mui nobre Associação de Solidariedade Social dos Professores em Viseu.

Se por um lado a minha dupla certificação como Coach me trazia a necessária  segurança, por outro a imagem da plateia, uma espécie de sala de professores concentrada, habituadíssimos a ouvir e a avaliar, desafiava a tal almejada segurança. Mas era sobre Coaching que iria falar, isso tal de Coaching que, também graças ao futebolista Éder e à sua mental coach, estava na ordem do dia e tinha sido catapultado para a ribalta. Pois então nada melhor que usar uma ferramenta do processo e fazer uma viagem no tempo. Uma curta viagem, avançar apenas o suficiente para ir ao final da palestra, onde já pude ver os olhares de aprovação, ouvir os aplausos e sentir os calorosos e sinceros cumprimentos. Ficou mais fácil, ficou mais plausível, fiquei mais seguro.

Falou-se - e questionou-se, não fosse o tema coaching, indissociável de questões - de metas, objectivos, de valores e crenças limitantes e poderosas. Também de linguagem corporal e como esta nos influencia e quanto influencia que nos ouve/vê. Já próximo do final surgiu uma importante questão: “ E quando falhamos?” Ah, o falhar, esse quase palavrão nesta eficaz sociedade, onde a corrente New Age, com o seu positivismo exacerbado, condena sobremaneira o falhar… O falhar, o fracasso, é um julgamento sobre o resultado a curto prazo. Se o Coachee (cliente) ainda não alcançou a sua meta, tudo o que isso significa é que não alcançou a sua meta - ainda.


segunda-feira, 4 de abril de 2016

Brincar a sério

“Legos. Viemos à procura de legos.” foi a resposta dos meus amigos quando indaguei o que faziam por aquela loja. Sabendo de antemão que nenhum tinha filhos mais curioso fiquei, e já a “armadilhar” as perguntas quis saber: Que tipo de legos? Eram de arquitectura. Não da nova série branca, para as maquetes, mas sim da série dos edifícios famosos. Bestial, adultos bem crescidos, à entrada de uma loja, a conversar sobre legos...

Mas o assunto Lego é um assunto sério, tão sério que desde que a Lego percebeu que o seu negócio central não era, nem a roupa, nem os parques temáticos, mas sim os bons e velhos - velhos não, clássicos - pedacinhos de plástico que permitem uma sem número de combinações possíveis, que a Lego ganhou nova força e projecção. Certo que os filmes e os hotéis Lego são modelos de negócio estáveis e lucrativos. Mais certo e inovador é que os Legos sejam actualmente usados em formação e gestão para criar hipotéticos cenários, para, num modelo reduzido, poder-se recriar fluxos de trabalho e estudar a interligação entre vários elementos. 

Se na coluna anterior referi a realidade aumentada esta é qual? A realidade reduzida? Sim… e não. É reduzia em escala mas ampla em algo que os tempos actuais exigem, rapidez de resposta. Brincando com legos (atenção, brincando a sério, não a brincar) uma organização consegue, entre outras coisas, uma prototipagem de soluções de outra forma demasiado onerosa. Permite ainda uma macro-visão de todo o seu universo. Como se o gestor fosse um mini-Criador. Nada mal para umas peças de plástico, pois não? Muito se pede para pensar fora da caixa. Que tal pensar dentro da caixa, da caixa de Legos? Experimente brincar. A sério, não na brincadeira.